Os Estados Unidos anunciaram que a China se comprometeu a comprar pelo menos US$ 17 bilhões anualmente em produtos agrícolas americanos durante três anos, além das importações de soja, após uma cúpula entre os líderes dos dois países em Pequim na semana passada.
A China é a maior importadora mundial de produtos agrícolas e havia reduzido drasticamente as compras de produtos americanos após a última guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo. No entanto, ambos os lados concordaram em expandir o comércio agrícola e abordar as barreiras não tarifárias que afetam a carne bovina e de aves, de acordo com o Ministério do Comércio da China.
O que significa, na prática, esse acordo?
O compromisso de US$ 17 bilhões, somado às obrigações já existentes relativas à soja, elevaria o total das importações chinesas de produtos agrícolas dos EUA para cerca de US$ 28 a 30 bilhões anualmente, segundo estimativas de comerciantes e analistas.
Esse nível ficaria abaixo do pico de US$ 38 bilhões atingido em 2022, mas estaria muito acima dos US$ 8 bilhões registrados no ano passado e dos US$ 24 bilhões previstos para 2024.
Para atingir essa meta, Pequim precisaria aumentar significativamente as compras de trigo, grãos para ração animal, produtos cárneos e produtos agrícolas não alimentícios, como algodão e madeira.
A China já havia cumprido um compromisso anterior de comprar 12 milhões de toneladas de soja, além de quantidades de trigo e grandes volumes de sorgo, conforme um acordo prévio entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping. Segundo esse acordo, Pequim se comprometeu a comprar pelo menos 25 milhões de toneladas de soja anualmente.
Uma reconfiguração dos fluxos comerciais globais
O aumento das compras chinesas de produtos agrícolas americanos provavelmente ocorrerá em detrimento de fornecedores concorrentes, como Brasil, Austrália e Canadá.
Cheng Kang Wei, vice-presidente da StoneX em Singapura, afirmou que atingir a meta anual de US$ 17 bilhões, excluindo a soja, "provavelmente exigirá um redirecionamento deliberado das compras dos fornecedores atuais para os Estados Unidos por razões políticas e estratégicas, e não puramente comerciais".
O Brasil é atualmente o principal fornecedor de soja para a China, detendo uma participação de mercado de 73,6% em 2025, e também se tornou o maior fornecedor de milho do país. A China também aprovou a importação de produtos processados brasileiros para ração animal (DDGS) no ano passado.
A Austrália, que foi o maior fornecedor de trigo da China em 2023 e o maior exportador de sorgo em 2025, poderá enfrentar uma demanda mais fraca caso as importações de trigo e sorgo dos EUA aumentem. As importações de cevada também podem ser afetadas, assim como a demanda por carne bovina australiana de alta qualidade.
As exportações de trigo do Canadá e da França, assim como os embarques de sorgo da Argentina, também podem sofrer pressão com o aumento das compras dos EUA.
A soja continua sendo o ponto central do acordo.
A expectativa é que a China comece a comprar soja da nova safra dos EUA a partir de outubro, com os estoques americanos se beneficiando de preços mais competitivos em relação aos embarques brasileiros.
Um comerciante de óleos vegetais na Ásia disse: "Comprar 25 milhões de toneladas de soja dos EUA não parece problemático, já que os preços nos EUA estão atualmente atrativos."
Espera-se que a COFCO e a Sinograin estejam entre os principais compradores.
Desde o primeiro mandato de Trump, a China reduziu drasticamente sua dependência da soja americana. Em 2024, as importações dos EUA representaram cerca de um quinto do total das importações chinesas de soja, em comparação com 41% em 2016.
Milho e trigo
Espera-se que as empresas estatais chinesas continuem sendo as principais compradoras de milho e trigo dos EUA, visto que essas commodities estão sujeitas a cotas de importação com tarifas reduzidas.
A China mantém quotas de importação de 9,64 milhões de toneladas para trigo e 7,2 milhões de toneladas para milho, com uma tarifa de 1%, enquanto as importações que excedem essas quotas estão sujeitas a tarifas elevadas de até 65%.
As importações chinesas de milho dos EUA caíram para apenas US$ 5 milhões em 2025, após atingirem US$ 561,5 milhões no ano anterior, enquanto as importações de trigo caíram para perto de zero, depois de totalizarem 1,9 milhão de toneladas em 2024.
Sorgo e DDGS
A China também deverá aumentar as compras de grãos para ração animal, como o sorgo, principalmente após as fortes chuvas terem danificado as plantações nas regiões norte do país.
O sorgo não está sujeito a quotas de importação.
Desde novembro, Pequim comprou pelo menos 2,5 milhões de toneladas de sorgo dos EUA para compensar a escassez de milho no mercado interno, embora o aumento das compras de DDGS (grãos secos de destilaria com sorgo) exija a remoção das taxas antidumping e antissubsídios em vigor desde 2017.
Carne e produtos não alimentícios
A China representa um mercado importante para partes de carne dos EUA, como pés de galinha, orelhas de porco e miúdos, produtos que enfrentam demanda interna limitada nos Estados Unidos.
Espera-se um aumento nas importações de carne bovina e de aves após ambos os países concordarem em resolver questões pendentes. Pequim já concedeu renovações de registro por cinco anos para 425 instalações de exportação de carne bovina dos EUA, além de aprovar 77 novas instalações.
Em dezembro, a China também introduziu um sistema de cotas de importação para carne bovina, com tarifas que chegam a 55% sobre os volumes que excedem as cotas, a fim de proteger os produtores nacionais.
Produtos agrícolas não alimentares
As importações chinesas também podem incluir produtos não alimentícios, como algodão e madeira. As importações de algodão caíram para US$ 225,7 milhões no ano passado, em comparação com US$ 1,85 bilhão em 2024.
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