A produção de semicondutores pode ser afetada negativamente pelo conflito em curso no Oriente Médio devido a interrupções na cadeia de suprimentos, particularmente no fornecimento de hélio, que é um componente essencial na fabricação de chips.
Alguns setores inesperados estão sofrendo forte pressão como resultado da guerra com o Irã, com múltiplas cadeias de suprimentos enfrentando graves interrupções que vão além do petróleo e do gás. Isso pode levar a atrasos significativos na produção de semicondutores, a menos que as grandes potências cheguem a acordos para interromper o conflito e reabrir rotas comerciais vitais.
O hélio é um componente crítico na fabricação de semicondutores, pois é utilizado nos processos de produção de chips e ajuda a manter as condições ideais durante a fabricação. Na fotolitografia, o hélio é usado para criar um ambiente de vácuo estável e garantir o alinhamento e a exposição precisos das fotomáscaras. Ele também contribui para o resfriamento dos materiais semicondutores, reduzindo o estresse térmico que poderia afetar negativamente o desempenho do chip.
Ao contrário de outros gases industriais, não existe um substituto eficaz para o hélio na produção de chips. Como um gás nobre, o hélio é quimicamente inerte, reduzindo os riscos de contaminação durante a fabricação. Sua baixa condutividade térmica permite um controle preciso da temperatura, enquanto seu baixo peso e pequeno tamanho atômico possibilitam seu uso em ambientes ultralimpos.
O uso de hélio permite que os fabricantes alcancem níveis mais elevados de precisão e controle no projeto de circuitos eletrônicos.
O hélio é um subproduto da produção de gás natural liquefeito (GNL), o que significa que os fornecedores de GNL geralmente também são grandes exportadores de hélio. Alguns fabricantes de semicondutores dependem fortemente de mercados específicos para o fornecimento de hélio, o que os coloca em uma posição difícil quando ocorrem interrupções e os força a buscar fontes alternativas.
Na Coreia do Sul, um dos principais produtores mundiais de semicondutores, diversas empresas dependem fortemente de países do Oriente Médio para a importação de hélio. Por exemplo, em 2025, a empresa Jokan importou cerca de 64% de suas necessidades de hélio do Catar.
A Coreia do Sul e Taiwan, juntas, representam cerca de 36% da produção mundial de semicondutores.
A dependência não se limita a um único país, já que a enorme instalação de Ras Laffan da QatarEnergy fornece quase um terço do hélio mundial. No entanto, a instalação ficou fechada por mais de uma semana após ataques de drones iranianos forçarem a suspensão das operações.
A paralisação reduziu imediatamente o fornecimento global de hélio em 30%.
O Catar e vários outros países do Oriente Médio dependem fortemente do Estreito de Ormuz, uma rota comercial vital que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico, para o transporte de mercadorias. O estreito representa um ponto de estrangulamento estratégico devido às limitadas alternativas para o transporte de energia, além de algumas redes de gasodutos restritas na região.
O fechamento quase total do estreito não só causou a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história, como também afetou significativamente as cadeias de abastecimento entre a Europa e a Ásia.
Os Estados Unidos são o maior produtor mundial de hélio, o que significa que países que não conseguem obter o gás do Oriente Médio podem recorrer aos EUA como alternativa. No entanto, é improvável que Washington consiga atender ao aumento repentino da demanda com rapidez suficiente.
A Rússia também é uma grande produtora de hélio, mas as amplas sanções impostas após a invasão da Ucrânia em 2022 fizeram com que os investidores hesitassem em entrar no mercado russo ou importar seus produtos.
Atualmente, empresas sul-coreanas como Samsung, SK Hynix e TSMC temem que essas interrupções possam reduzir sua produção até que fontes alternativas de hélio sejam garantidas.
Entretanto, a demanda global por semicondutores continua a crescer ano após ano, impulsionada pela rápida expansão de tecnologias avançadas como a inteligência artificial. Algumas empresas temem não conseguir atender aos pedidos dentro do prazo, o que poderia forçá-las a produzir chips com margens menores para cumprir os compromissos.
No entanto, a SK Hynix anunciou recentemente que diversificou suas fontes de fornecimento de hélio e garantiu estoque suficiente a curto prazo.
Permanece incerto quanto tempo durará a guerra com o Irã, ou o conflito mais amplo no Oriente Médio, especialmente porque o presidente dos EUA, Donald Trump, declarou que os Estados Unidos pretendem continuar suas operações no Irã até que uma "vitória completa" seja alcançada.
Caso a guerra se prolongue por vários meses, é provável que as interrupções no fornecimento de hélio persistam, o que poderá elevar os preços dos semicondutores a médio prazo.
A crise no fornecimento de hélio do Catar evidencia a fragilidade das cadeias de suprimentos de semicondutores, visto que os principais países produtores de chips dependem fortemente de Doha nesse setor.
O conflito no Oriente Médio pode levar os produtores a buscar fontes alternativas de hélio, tanto a curto quanto a longo prazo, e também pode incentivar as empresas a fortalecer as cadeias de suprimentos regionais para reduzir a exposição a futuras perturbações geopolíticas.
Os preços do petróleo subiram, uma vez que o impacto das interrupções no fornecimento — que variam desde paralisações na produção nos países do Golfo até novos ataques à infraestrutura energética na região — superou a pressão do Iraque, que retomou as exportações através do oleoduto para o porto de Ceyhan, na Turquia.
Sem sinais de desescalada no conflito com o Irã, o petróleo Brent, referência internacional, manteve-se acima de US$ 100 por barril nas últimas quatro sessões.
Os contratos futuros do Brent subiram US$ 0,61, ou 0,6%, para US$ 104,02 por barril às 11h55 GMT, após terem caído para US$ 100,34 durante a sessão.
Em contrapartida, o petróleo bruto West Texas Intermediate (WTI) dos EUA caiu US$ 1,28, ou 1,3%, para US$ 94,93 por barril.
Tendências de preços divergentes
Ole Hansen, analista do Saxo Bank, afirmou que a divergência nas tendências de preços reflete cada vez mais o foco do WTI no mercado americano, enquanto o Brent acompanha mais de perto as interrupções no fornecimento global.
Retomada das exportações iraquianas
No Iraque, fontes da North Oil Company informaram que as exportações pelo oleoduto foram retomadas após um acordo entre Bagdá e o Governo Regional do Curdistão para reiniciar o fluxo de petróleo.
Dois funcionários do setor petrolífero disseram na semana passada que o Iraque pretende bombear pelo menos 100 mil barris por dia através do porto.
No entanto, analistas do MUFG observaram que o alívio da pressão sobre a oferta permanece limitado, já que a produção do Iraque ainda está em cerca de um terço dos níveis pré-crise, enquanto o tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz continua significativamente restrito.
A produção de petróleo dos principais campos do sul do Iraque caiu cerca de 70%, para 1,3 milhão de barris por dia, depois que o conflito com o Irã interrompeu o fluxo no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
Tensões e ataques crescentes
A agência de notícias iraniana Tasnim informou que algumas instalações da indústria petrolífera em South Pars e Asaluyeh foram alvo de ataques, mas a extensão dos danos ainda não está clara.
As forças armadas dos EUA também anunciaram ataques a alvos ao longo da costa iraniana, perto do Estreito de Ormuz, alegando ameaças de mísseis antinavio à navegação internacional.
O Irã confirmou o assassinato do chefe do Conselho de Segurança Nacional, Ali Larijani, em um ataque israelense, o que, juntamente com os ataques dos EUA, aumentou as esperanças de um fim mais rápido para o conflito.
Desenvolvimentos adicionais no fornecimento
Na Líbia, a Corporação Nacional de Petróleo anunciou o redirecionamento gradual do fluxo de petróleo do campo de Sharara por meio de oleodutos alternativos, em decorrência de um incêndio.
Nos Estados Unidos, dados do Instituto Americano de Petróleo mostraram que os estoques de petróleo bruto aumentaram em 6,56 milhões de barris na semana que terminou em 13 de março, superando em muito as expectativas de um aumento de cerca de 380.000 barris.
O dólar americano caiu na quarta-feira com a queda dos preços do petróleo, permitindo um retorno parcial do apetite por risco entre os investidores antes de uma série de reuniões de bancos centrais.
A moeda americana se desvalorizou em relação ao iene japonês, que anteriormente havia recuado de níveis nos quais os investidores esperavam intervenção das autoridades japonesas, antes de um encontro previsto em Washington entre o presidente Donald Trump e a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi.
O dólar também reverteu a tendência em relação ao euro durante o dia, com a moeda única europeia continuando a se valorizar pela terceira sessão consecutiva, antes do início da reunião de dois dias do Banco Central Europeu.
Apesar dessa queda, o dólar ainda mantém os ganhos acumulados desde o início dos ataques EUA-Israel ao Irã, há cerca de três semanas, já que as tensões impulsionaram a demanda por ativos considerados seguros.
Petróleo e seu impacto nos mercados
Os preços do petróleo caíram mais de US$ 2 por barril após um acordo entre as autoridades iraquianas e curdas para retomar as exportações de petróleo pelo porto de Ceyhan, na Turquia, a partir de quarta-feira.
Hirofumi Suzuki, estrategista-chefe de câmbio do Sumitomo Mitsui Banking Corp, afirmou que, com a pausa temporária na alta dos preços do petróleo, as condições não melhoraram significativamente, mas os mercados começaram a se recuperar um pouco.
Ele acrescentou que os movimentos no par dólar/iene indicam uma inclinação para o fortalecimento do iene.
Movimentos cambiais
O índice do dólar, que mede seu desempenho em relação a seis moedas principais, caiu 0,04%, para 99,51, marcando a terceira sessão consecutiva de declínio.
O euro subiu 0,04%, para US$ 1,1543.
O iene japonês valorizou-se 0,21%, atingindo 158,64 em relação ao dólar.
A libra esterlina subiu 0,1%, para US$ 1,3368.
O dólar atingiu a sua cotação mais alta em 10 meses no final da semana passada, à medida que os investidores se voltaram para ativos de refúgio devido à escalada do conflito no Oriente Médio e à alta dos preços do petróleo, que se mantiveram acima de US$ 100 para o petróleo Brent por quatro sessões consecutivas.
Expectativas do mercado e bancos centrais
Analistas da Mizuho Securities indicaram que, mesmo que o conflito continue sem solução, as ações podem se recuperar, dando suporte a moedas de países exportadores de commodities, como o dólar australiano, bem como a moedas de países importadores de petróleo, como o iene e o euro.
O dólar australiano subiu 0,21%, para US$ 0,7117, enquanto o dólar neozelandês valorizou-se 0,19%, para US$ 0,5868.
Entretanto, espera-se que o Federal Reserve dos EUA anuncie sua decisão de política monetária na quarta-feira, seguido pelo Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra e o Banco do Japão no dia seguinte.
As expectativas apontam para a manutenção das taxas de juros inalteradas, enquanto os investidores aguardam sinais sobre a inflação e as perspectivas econômicas em meio à guerra em curso no Oriente Médio.