Desde o início do conflito no Oriente Médio, há cerca de um mês, os analistas têm se concentrado principalmente nos dados do mercado de energia.
Em 2 de março, o Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, uma via navegável responsável pelo transporte de cerca de um quinto do suprimento mundial de petróleo e gás. Desde então, os preços do petróleo subiram acentuadamente.
Os preços subiram para mais de US$ 110 por barril, levando os Estados Unidos a lançar uma operação para reabrir o estreito, enviando aeronaves e helicópteros para a região.
No entanto, enquanto os mercados acompanham de perto os preços do petróleo e temem a escassez de combustível, outras commodities estão retidas no Golfo e podem ter repercussões graves.
Hélio
Pode ser uma surpresa para alguns que os usos do hélio vão muito além de balões de festa, já que ele é um elemento fundamental na fabricação de semicondutores, em imagens médicas e em tecnologias espaciais.
O Catar produz cerca de um terço do fornecimento mundial de hélio, que passa pelo estreito, mas foi forçado a interromper a produção após o início da guerra, com alertas de que ataques à infraestrutura energética paralisarão ainda mais as exportações.
O transporte de hélio também é complexo, pois ele é armazenado em recipientes isolados por um período entre 35 e 48 dias em estado líquido.
Após esse período, as moléculas começam a aquecer e a vazar, o que significa que as cargas retidas no estreito perdem rapidamente o seu valor, interrompendo as cadeias de abastecimento.
O hélio é um componente vital na produção de semicondutores, incluindo chips usados em modelos de inteligência artificial, o que pode afetar as ações de grandes empresas de tecnologia que já enfrentam preocupações com uma possível bolha no setor de IA.
Outros usos
O hélio também é usado em máquinas de ressonância magnética para resfriar os ímãs e no setor espacial para limpar os tanques de combustível de foguetes.
A expectativa é de que a demanda aumente no setor espacial com a entrada de mais empresas privadas na área, como a SpaceX de Elon Musk e a Blue Origin de Jeff Bezos.
Thomas Abraham-James, CEO da Pulsar Helium, afirmou que a crise atual apresenta dois desafios simultâneos para o mercado de hélio.
Ele acrescentou que o fechamento do Estreito de Ormuz significa que, mesmo que a infraestrutura permaneça intacta, os produtos não conseguem chegar aos mercados.
Ele explicou que o fornecimento poderia começar a ser retomado dentro de algumas semanas, caso as tensões diminuam, mas o retorno aos níveis normais de produção poderia levar meses, enquanto a restauração da capacidade danificada poderia levar anos.
Fertilizantes
Componentes de fertilizantes que sustentam quase metade da produção mundial de alimentos também passam pelo Estreito de Ormuz.
Os países do Golfo representam cerca de 49% do comércio mundial de ureia, um fertilizante rico em nitrogênio usado em culturas como o trigo.
Os preços da ureia subiram mais de 40% desde o início da guerra, num momento delicado que coincide com a época de plantio da primavera no Hemisfério Norte, o que significa que o impacto pode chegar aos consumidores.
O impacto não se limita aos preços, já que a escassez de oferta pode levar a uma menor produção agrícola devido à dificuldade em obter fertilizantes.
Os preços da amônia também subiram cerca de 20%, outro componente essencial dos fertilizantes, em um momento em que países produtores como o Catar foram forçados a interromper a produção devido a greves e ao fechamento do estreito.
Analistas acreditam que as contínuas interrupções podem aumentar a pressão sobre os mercados agrícolas e elevar o risco de inflação alimentar global.
Os preços do cobre subiram durante as negociações de quarta-feira, após caírem na sessão anterior devido à recusa do Irã em realizar negociações com os Estados Unidos para pôr fim à guerra no Oriente Médio. No entanto, o metal vermelho encontrou suporte com o anúncio de Washington de um documento de 15 pontos que delineia as condições para o fim da guerra com Teerã.
O metal encerrou o pregão de segunda-feira com alta de 2%, após Donald Trump falar de "negociações muito boas e produtivas" com Teerã e decidir adiar os ataques planejados contra a infraestrutura energética do Irã.
O jornal The New York Times noticiou que os Estados Unidos enviaram um plano de paz ao Irã para pôr fim à guerra, citando fontes não identificadas. Acrescentou que o plano de 15 pontos foi entregue via Paquistão. No entanto, os dois lados permanecem distantes, enquanto os ataques mútuos continuam. O Wall Street Journal também noticiou que os Estados Unidos pretendem enviar a 82ª Divisão Aerotransportada para o Oriente Médio.
O relatório sobre o plano de paz foi divulgado depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na terça-feira que os Estados Unidos estão "atualmente em negociações" com o Irã, acrescentando que Teerã está "agindo racionalmente" e parece aberta a um acordo de paz. Em contrapartida, a mídia estatal iraniana declarou que o país não aceitará os esforços dos EUA para um cessar-fogo.
Eva Manthey, analista de commodities do ING, disse: "O cobre está recuando hoje após a recuperação de ontem, à medida que o otimismo geopolítico diminui."
Os preços do petróleo caíram na quarta-feira, aliviando a pressão sobre os metais industriais. Isso sugere uma redução nas preocupações de que os bancos centrais terão menos espaço para cortar as taxas de juros e que o aumento dos custos dos combustíveis poderá enfraquecer o crescimento econômico global.
O Citigroup reduziu sua previsão para o preço do cobre para US$ 11.000 por tonelada nos próximos três meses, ante a estimativa anterior de US$ 14.000.
O banco observou que os metais industriais podem continuar a cair enquanto o Estreito de Ormuz permanecer fechado, à medida que os investidores reduzem as apostas em cortes nas taxas de juros do Federal Reserve, juntamente com expectativas de crescimento cíclico mais fracas e redução contínua do risco em ativos de alto risco.
Os elevados estoques de cobre na Bolsa de Metais de Londres, que atingiram 359.275 toneladas — o nível mais alto em quase oito anos — também pressionaram os preços, com entradas adicionais de 11.800 toneladas registradas na segunda-feira, mais da metade das quais foram para os armazéns da bolsa em Kaohsiung.
A diferença entre os preços à vista e os contratos de três meses permanece em forte contango, em torno de US$ 92 por tonelada.
Por outro lado, a retomada da demanda da China — o maior consumidor mundial de cobre — ajudou a limitar as perdas, principalmente após os estoques de cobre nas bolsas chinesas terem caído 5,2% na semana passada.
Nos Estados Unidos, os contratos futuros de cobre para entrega em maio subiram 1,8%, para US$ 5,55 por libra, às 15h07 GMT.
O Bitcoin subiu ligeiramente na quarta-feira, mantendo-se acima do nível de US$ 71.000, enquanto os investidores ponderavam as tensões em curso no Oriente Médio contra os cautelosos sinais de diplomacia entre Washington e Teerã.
A maior criptomoeda do mundo subiu 1%, atingindo US$ 71.197,8 às 02h27 da manhã, horário do leste dos EUA (06h27 GMT).
O Bitcoin havia caído abaixo do nível de US$ 70.000 no início da semana, à medida que o conflito se intensificava, levando os investidores a evitar riscos e pressionando os ativos digitais.
Ataques contra Teerã, apesar dos comentários de Trump sobre negociações.
O presidente dos EUA, Donald Trump, disse na terça-feira que Washington está "atualmente em negociações" com o Irã, acrescentando que Teerã está "falando racionalmente" e parece aberta a chegar a um acordo de paz.
Notícias de que os Estados Unidos teriam apresentado ao Irã uma proposta de 15 pontos para pôr fim ao conflito também alimentaram as esperanças de uma desescalada.
No entanto, os acontecimentos contraditórios mantiveram os investidores cautelosos, uma vez que relatos da mídia indicaram que Israel realizou ataques na capital iraniana, Teerã, na quarta-feira, destacando a fragilidade de qualquer progresso diplomático.
Os movimentos do mercado de petróleo alimentam o apetite por risco.
Os preços do petróleo caíram na quarta-feira, devolvendo parte dos ganhos recentes, à medida que os mercados precificaram a possibilidade de redução dos riscos de oferta na região, sustentando o apetite geral por risco.
As criptomoedas estão cada vez mais acompanhando o sentimento global de risco, reagindo a mudanças nas tensões geopolíticas e nos mercados de energia, com suas perdas anteriores coincidindo com a alta dos preços do petróleo.
Os futuros dos índices de ações dos EUA também subiram durante o pregão asiático, acompanhando os ganhos das ações asiáticas.
Altcoins registram ganhos limitados
Apesar do cenário instável, o Bitcoin demonstrou resiliência próximo ao nível de US$ 70.000, com analistas apontando para o interesse institucional contínuo e a melhoria das condições de liquidez como fatores de suporte.
No mercado de altcoins, o Ethereum subiu 1,2%, para US$ 2.172, enquanto o Ripple teve alta de 0,4%, para US$ 1,42.
Os preços do petróleo caíram cerca de 5% na quarta-feira, após relatos indicarem que os Estados Unidos apresentaram ao Irã uma proposta de 15 pontos com o objetivo de pôr fim à guerra, aumentando as esperanças de progresso rumo a um cessar-fogo, apesar dos contínuos ataques aéreos entre Israel e Irã.
Os contratos futuros do petróleo Brent caíram US$ 5,66, ou 5,42%, para US$ 98,83 por barril às 10h22 GMT, após atingirem US$ 97,57 no início da sessão. O petróleo bruto West Texas Intermediate (WTI) dos EUA recuou US$ 4,82, ou 5,22%, para US$ 87,53, após atingir a mínima de US$ 86,72.
Os dois preços de referência do petróleo bruto subiram cerca de 5% na terça-feira, antes de reduzirem os ganhos em negociações voláteis posteriores.
Apesar da queda nos preços impulsionada pelas expectativas de cessar-fogo, analistas apontaram para relatos paralelos de deslocamento de tropas americanas no Oriente Médio, refletindo a incerteza contínua.
O presidente dos EUA, Donald Trump, disse na terça-feira que seu país está progredindo nas negociações para pôr fim à guerra, enquanto uma fonte confirmou que Washington já apresentou a proposta ao Irã.
No entanto, alguns analistas expressaram dúvidas sobre a seriedade desse progresso, prevendo que a volatilidade do mercado persistirá.
Larry Fink, CEO da BlackRock Inc., alertou que as contínuas ameaças do Irã ao Estreito de Ormuz podem manter os preços do petróleo entre US$ 100 e US$ 150 por barril durante anos, acrescentando que "veremos uma recessão global" se os preços atingirem US$ 150.
Interrupções no fornecimento de petróleo pelo Estreito de Ormuz
Os acontecimentos no Oriente Médio continuam sendo o principal fator determinante das oscilações nos preços do petróleo, já que a guerra levou a uma paralisação quase total das remessas de petróleo e gás natural liquefeito pelo Estreito de Ormuz, que responde por cerca de um quinto do fornecimento global.
A Agência Internacional de Energia descreveu a situação como a maior interrupção no fornecimento de petróleo de sempre, com perdas diárias estimadas em cerca de 20 milhões de barris, o que implica uma perda de aproximadamente 500 milhões de barris ao longo de 25 dias.
Os analistas observaram que o mercado permanece restrito, apesar da possibilidade de desescalada, salientando que a retomada do fluxo pelo estreito não significa necessariamente um rápido retorno da produção interrompida, dada a incerteza quanto à durabilidade de qualquer acordo de cessar-fogo.
Nesse contexto, o Irã informou ao Conselho de Segurança da ONU e à Organização Marítima Internacional que embarcações “não hostis” podem passar pelo Estreito de Ormuz, desde que haja coordenação com as autoridades iranianas.
Para mitigar o impacto das interrupções no fornecimento, as exportações de petróleo do porto de Yanbu, na Arábia Saudita, no Mar Vermelho, aumentaram para cerca de 4 milhões de barris por dia na semana passada, em comparação com os níveis mais baixos anteriores à guerra.
Entretanto, as operações de carregamento de petróleo nos portos russos de Primorsk e Ust-Luga, no Mar Báltico, foram interrompidas após ataques de drones ucranianos provocarem um grande incêndio, em um dos maiores ataques contra instalações de exportação de petróleo russas durante os quatro anos de guerra, aumentando a incerteza nos mercados globais.