Na primavera de 2024, o governo bielorrusso incluiu a fábrica de componentes de rádio Manalit, na cidade de Vitebsk, no "Quadro de Honra Republicano" em reconhecimento aos seus "excepcionais resultados econômicos". Este foi o segundo ano consecutivo em que a fábrica recebeu o prêmio.
Este reconhecimento para a Manalit — uma fábrica de propriedade russa localizada na Bielorrússia — ocorreu em um momento em que ela se tornou uma fornecedora essencial de componentes eletrônicos de alta confiabilidade usados em mísseis, radares e aeronaves utilizados pela Rússia em sua guerra contra a Ucrânia.
Durante os dois primeiros anos da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, que começou em fevereiro de 2022, os lucros anuais da Manalit aumentaram quase seis vezes, impulsionados quase inteiramente pelas exportações militares para a Rússia.
A história da Manalit reflete a de muitas fábricas de indústria pesada na Bielorrússia. Fundada na era soviética como uma grande produtora de capacitores cerâmicos, enfrentou uma grave crise na década de 1990, com o colapso da demanda. Em 2009, estava próxima da liquidação total.
Em 2011, a salvação e a transformação vieram de sua antiga concorrente, a fábrica de Kolon, em São Petersburgo, Rússia. Investidores russos adquiriram uma participação majoritária de 51%, tornando Manalit efetivamente uma base de produção offshore para a indústria de defesa russa.
Capacitores projetados para a guerra
A Manalit é especializada na produção de capacitores cerâmicos multicamadas ultraduráveis, aprovados para uso em aplicações militares e espaciais.
Em novembro de 2020, o diretor da fábrica, Alexander Shumakher, disse à agência de notícias estatal BelTA: “Noventa e sete por cento da nossa produção atende à indústria de defesa russa”.
Em 2024, o chefe do comitê executivo regional de Vitebsk, Alexander Subotsin, declarou que a usina estava “operando sistematicamente” e havia alcançado resultados nos últimos dois anos “que não poderiam deixar de agradar”.
Esses capacitores — como os da série K10-84 — não se destinam a eletrônicos de consumo. São utilizados em sistemas de orientação de mísseis, conjuntos de radares, unidades de guerra eletrônica e sistemas de controle nuclear, onde uma falha pode significar a perda de uma missão ou arma.
Uma brecha nas sanções
Sanções ocidentais impostas à Rússia em 2014 após a anexação da Crimeia da Ucrânia cortaram o acesso direto a eletrônicos ocidentais avançados para uso militar.
A Bielorrússia, no entanto, não estava sujeita a essas restrições até 2022. Por quase oito anos, a Manalit explorou essa lacuna, importando equipamentos e materiais da Europa e dos Estados Unidos e, em seguida, enviando os componentes acabados para a Rússia para substituir peças ocidentais proibidas.
Mesmo hoje, apesar das sanções da UE e dos EUA, a Manalit ainda pode comprar linhas de produção da KEKO da Eslovênia, equipá-las com painéis de controle japoneses Pro-face (de propriedade da francesa Schneider Electric) e continuar comprando pós de metais preciosos dos EUA para a fabricação de capacitores.
Evidências entre os destroços da guerra
De acordo com um especialista da Diretoria de Inteligência de Defesa da Ucrânia (HUR), capacitores K10-84 produzidos pela Manalit foram encontrados em mísseis balísticos russos Iskander, mísseis de cruzeiro Kalibr, mísseis de cruzeiro Kh-101 lançados do ar, mísseis de defesa aérea S-200 e S-300 e radares de contrabateria Zoopark.
“No sistema de pressão de ar do míssil Kh-101, todos os capacitores e 80% dos chips eletrônicos são fabricados na Bielorrússia. Nas unidades de controle de mísseis Iskander modelo 2024, quase todos os capacitores são da Manalit”, disse o especialista.
Conexões do Kremlin
As exportações da Manalit para a Rússia são encaminhadas por meio de um único distribuidor: SpecElectronKomplekt (SpecEk), um fornecedor importante do Ministério da Defesa da Rússia.
Dados alfandegários obtidos pela Rádio Free Europe/Rádio Liberty e pelo Centro Investigativo Bielorrusso mostram que, entre outubro de 2022 e março de 2025, a Manalit enviou US$ 43 milhões em mercadorias para a SpecEk — 96% delas capacitores cerâmicos.
A SpecEk está listada no registro fechado de contratantes de defesa da Rússia, que inclui fornecedores de grandes empresas de defesa russas, como:
Rostec: um grupo que reúne 350 empresas de defesa que produzem 40% dos pedidos militares estatais russos.
Almaz-Antey: fabricante dos sistemas de defesa aérea S-300, S-400, Buk e Tor.
KRET: sistemas de guerra eletrônica.
UAC: aeronaves Su, MiG e Tupolev.
Tactical Missiles Corporation: mísseis de precisão, incluindo Kh-101.
Uralvagonzavod: produção do principal tanque de batalha.
Helicópteros russos: helicópteros de ataque Mi-8, Ka-52 e Mi-35.
Lucros e Sanções da Guerra
Antes da guerra generalizada em 2022, o lucro anual da Manalit era de cerca de US$ 1,4 milhão. Em 2024, o lucro líquido havia disparado para US$ 6,2 milhões — um crescimento de mais de 460% em cinco anos.
A fábrica registrou lucros recordes durante o conflito mais sangrento na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
Em maio de 2023, a Ucrânia impôs sanções à Manalit por "facilitar diretamente a agressão militar russa". Em contraste, a UE e os EUA não impuseram sanções, deixando seu acesso a fornecedores ocidentais aberto.
Isso fez da Manalit efetivamente uma “porta de entrada de sanções” — uma entidade legal bielorrussa que transfere tecnologia ocidental para os militares russos.
Desde que ficou sob controle russo em 2011, a usina foi modernizada com equipamentos ocidentais, manteve acesso aberto a matérias-primas europeias e americanas, garantiu a certificação militar russa e forneceu capacitores encontrados em mísseis que atingiram diversas cidades ucranianas.
Enquanto os governos ocidentais continuam a debater novas sanções, capacitores produzidos em uma silenciosa fábrica bielorrussa continuam viajando das linhas de montagem de Vitebsk para fábricas de mísseis russas — e finalmente para os céus da Ucrânia.
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